Postado por Lizzie Pohlmann | Em Fe[lizzie]dade, Uncategorized
sexta-feira jun 27, 2008

•Eu sou abismo e silêncio. Nada no mundo me conhece por completo e por vezes muitas até eu mesma me desconheço, me surpreendo e me faço plural.
Eu jamais me deixaria ser decifrável; sou no máximo desbravável e um pouco surpreendente. Sou uma dúvida gritante, um imenso ponto de interrogação cuja pergunta a vida ignora e a resposta nunca me foi cabível ou aceitável.
Sou um pouco de Clarice Lispector, minha paixão indiscutível.Ela está tão viva em mim quanto o sangue que corre nas minhas veias. Sempre me considerei um absurdo, mas com ela descobri que o mundo sempre tem um alguém-absurdo, com uma lucidez latente e um olhar de extremo cuidado.
Meu apego é de extrema dificuldade, talvez porque todo fogo que absorvo faz geleiras de indiferença.E isso me dói por algum momento. Mas aí é hora de conhecer o outro lado: se me apego, me torno capaz de parar o tempo dentro de mim, esquecer as horas que me prendem e me atirar sem freios à essa duvidosa liberdade. Gosto das pessoas porque gosto, nunca tive a pretensão de querer mudá-las. E sou sincera, muito mais do que me é permitido ser. Suponho que saber o que se sente por mim seja bem fácil: ou gosta, ou não gosta. Eu me permito à facilidade e o sarcasmo das coisas.
Eu sou um quebra-cabeças de mil peças, que nem a existência conseguiu montar e me jogou no mundo, para que eu mesma trate de encontrar meus outros pedaços.E são tantos que mal me encontro.
[Des]encontro.
Paciência. Só eu sei o quanto a almejo e não alcanço. Calma[ria], dar tempo ao tempo e deixar que os [nossos] nós resolvam-se por si [sós]. Não é de hoje o meu ato de descomplicar ser vagaroso, [a]lento…
Vi[ver] é um ato de auto-permissão. Vida, amor à ela. Vid’amor, pois. Sem mistificações, sem amor não há sentido. Há?
“A verdade essencial da vida:
ela é um sistema instável no qual se perde
e se reconquista o equilíbrio a cada instante;
a inércia é que é o sinônimo de morte.
A lei da vida é mudar.”
[Simone de Beauvoir]
Postado por Lizzie Pohlmann | Em Cartas, D'os exílios
terça-feira jun 24, 2008
_____
Benditos sejam os aflitos, os confusos, os impacientes. Também os tristes, os sentimentais, os angustiados. Benditos sejam os sensíveis, os corajosos, os fracos e os indecisos. Benditos sejam os que passam fome e sede, os que não passam e os que temem ou enfrentam. Os oprimidos ou deprimidos, os que sonham ou que desacreditam.
Benditos sejam os filhos e os pais, os irmãos e os avós. Os dependentes, os afetuosos, os inseguros. Também os amigos, os inimigos e os desconhecidos.
Benditos sejam os que crêem e os que não o fazem. Benditos sejam religiosos e ateus, os severos e os calmos. Os que sofrem e os que não sofrem, os que temem, os que choram. Também os rejeitados, exilados ou descrentes de si.
Benditos sejam também os artistas e os médicos, que amenizam muitas dores.
Benditos sejam, pois, os meninos. Os meninos novos e os meninos velhos, os que já perderam o encanto de menino pela severidade da vida e também os com os quais a vida é dura, duríssima. Benditos sejam os que têm ou não um lar, os que já não têm amor, os que já não têm quase nada. Os felizes e infelizes.
Abençoa, meu Pai, todos eles. Porque sou e somos os mesmos. E deles, de nós, de todos, é que há de ser o reino dos céus.
“Quero uma cartola de mágico, mas que funcione bem,
para enfiar nela meu coração delirante e retirar uma
engrenagem melhor. Quero esconder na manga, na bolsa,
nessa cartola encantada, minha alma falida, a asa quebrada,
tanta contradição. Prefiro um objeto mais útil: calculadora
de emoção, maquininha de esquecer, relógio de sonho
preso num lugar…”
[Lya Luft]
Postado por Lizzie Pohlmann | Em Uncategorized, [Des]casos
terça-feira jun 17, 2008
A vida é -definitivamente- verbalizada. Tudo começa com um verbo: nascer. E vai formando uma corrente, um emaranhado de verbos onde crescer é utilizado repetidas vezes. Crescer: tão definitivo quanto a verborragia da vida.
Transbordar, capacitar, aflorar, tornar, continuar, alargar, acrescentar, expressar, apertar, voar, reivindicar, ansiar… E o mais engraçado é a abstinência total de regras no executar dos verbos. Expandir, fixar, mudar, poetizar…
Eu já perdi as contas de quantas vezes esperei com ansiedade que o telefone tocasse, que os emails chegassem, que as palavras pudessem ser totalmente compreensíveis… Mas o tempo também conjuga verbos e eu fui obrigada a aprender a esperar,a entender… E sem nenhuma regra a vida foi conjugando verbos soltos me obrigando a formar frases interligadas. Quantas vezes, penso agora - quantas vezes esqueci a gramática normativa, esqueci os pronomes e quis trocar o rumo…Quantas vezes abri parágrafos esparsos p’ra fazer florescer o início de uma nova história, que tão oposta a si continuava - e continua - a mesma. Mesmo que as circunstâncias não conheçam qualquer espécie de borracha, eu vou vivendo, emendando, deixando fluir toda vontade alegre e entusiasta que mora nesse sangue vermelho-encarnado.
Não quero -e não vou seguir caminhos traçados, trajetos indicados, só sei caminhar se for com meus próprios passos. E quem chegar, acompanhe. Não é preciso muito, só um pouco de calma… Existir é muito mais que o desenvolvimento pessoal, ele depende do sentido. Cada qual dá a existência seu sentido pela visão de mundo que tem. Aqueles que são capazes de dar o mesmo sentido às coisas, de priorizar os mesmos atos, fatos e pessoas é que vão seguir ao nosso lado, verbalizando.
Colorir, prosseguir, definir, reagir, sentir. E depois ainda ser capaz de crer, desenvolver, entender, querer, saber, comover, surpreender e crescer, crescer, crescer… Começo a notar que a palavra verbalizada também se interioriza.
Diga-me: também cresces p’ra dentro?
—————————————————-
Convite aos usuários do Orkut!
O blog agora tem comunidade no Orkut. Que tal entrar? O endereço é esse aqui.
“Lembro de tudo que houve,
De tudo o que ia haver,
Do que não foi nada
Dentro dos nadas que havia.”
[Kid Abelha]
Postado por Lizzie Pohlmann | Em Poesia do cotidiano, Uncategorized
sexta-feira jun 6, 2008
Andar insistentemente pela casa, procurar interminavelmente por algo que desconheço. Querer a busca, gostar dos gostos. Pensar no impossível, falar coisas absurdas, suportar o intragável, seguir o inrolutável. Ser perspicaz, jamais cair na inexpressividade, apreciar o inusitado que me soa peculiar. Adorar fitar o céu em dia nublado, não temer as revira-voltas da vida, ler livros compulsivamente [agora de forma BEM mais controlada]. Ouvir barulho de chuva caindo e não sentir medo, ansiar por um abraço e tê-lo. Dormir no completo escuro, sentir infinito sono, sono do mundo, sono das coisas, sono das pessoas. Fazer cara feia p’ra futilidade, ter mais respostas que perguntas , não ter instinto p’ra organização. Vocação zero p’ra enganar, olhar firmemente p’ra outros olhos , falar o que quero, calar o que me é singular. Apreciar o plural, mas gostar da singularidade. Amar outro ser, enlouquecer com o toque, rir com uma única palavra. Querer mais do que me é possível, temer as próprias fraquezas, ser perseguida pelas incertezas. Desarrumar a cama, trocar objetos de lugar, olhar tudo à volta e não sentir jamais algo familiar, crescer p’ra além de mim, observar, observar, observar [ad infinitum].
Eu, definitivamente desbravadora de mim mesma. Bem sei que me decifrarei nunca, e -espero eu!- me descobrirei sempre, sempre, sempre…
“Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme.
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme. “
[Fernando Pessoa]
Postado por Lizzie Pohlmann | Em [Des]casos
sexta-feira jun 6, 2008
Amanheci doída, sentindo o mundo em cólera. A maioria de nós segue na corda-bamba de olhos vendados… Sentir? Quê é o sentir? Toda gente quer ’suportar’, ’suportar’…Mas viver deve ser muito mais que ’suportar’, e continuamos suportando. Até quando?
Não me olhe assim, eu também tenho receios. Pensa que nunca pisei em cacos de vidro? Pisei muito. E continuo pisando. E ainda pisarei por muito tempo. Mas eu anseio por uma mudança urgente, existe algo em mim que quer empurrar tudo pra frente impacientemente. Eu não sei crescer sozinha, tenho que dar a mão e vir puxando alguém comigo. E nesse meio tempo, voltei atrás mil vezes p’ra buscar quem havia se perdido no meio do caminho. Mas e se eu me perder, alguém vai me buscar?
Tenha calma, eu estou aprendendo, estou aprendendo…
E eu sempre vou me aventurar além do que é permitido, eu preciso ir além da linha reta. Não quero margem, não aceito margens. Eu vou até onde eu acreditar poder ir.
Fragmentar? Unificar. Onde é que estão as mil e uma razões p’ra seguirmos em frente agora? Pois é, as coisas se perdem vezenquando mas precisamos fazer o de sempre: voltar atrás e buscá-las. Aqui dentro de mim existe um relicário chamado humanamente de ‘coração’, nele tenho toda a força que vou precisar na vida.
Se eu cair, levanto. Se eu me iludir, desiludo. Se eu perder a fé, a reformulo. Mas preciso viver do meu jeito, o tempo quase inexiste em mim. Me faço sem ele, desfaço.
Cala e observa: já não sei mais onde estou, tu o sabes? Eu não sou tão forte, preciso da tua mão pra me segurar na queda, nas quedas. Quedar? Não me negues a compreensão, eu preciso entender o que se passa… Não tenho medo, não tenha!
Segue, Lizzie. Paciência, aguenta. Segue…
“O tempo é a minha matéria,
o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.”
[Drummond]
Postado por Lizzie Pohlmann | Em Cartas
sexta-feira jun 6, 2008
Querido Coração;
O tempo passa e fico feliz[zie] em ver que tu continuas batendo ritmado e tranqüilo, muito embora tenhamos sustos e desencantos plurais. Escrevo-te esta carta para esclarecer algumas coisas que me preocupam. Talvez fiques espantado pela minha ousadia, mas precisamos de comunicação, espero que compreenda. Tomar todas as decisões sozinho não é bom, não.
Em primeiro lugar é meu dever avisar-te que não se pode abraçar o mundo, meu caro. Nem toda a gente da Terra pode caber aí dentro…Há quem não queira em ti o abrigo e o conforto, sabes? É difícil, eu sei que é difícil de entender, mas nem todas as pessoas se permitem ser afáveis. Dói! Dói mesmo, coração.
Eu já te vi tantas vezes por mágoas bater descompassado que nem sei explicar a alegria que tenho em ver que foste sempre muito breve em esquecer. E ficaste apertado quando viu que o caminho dos desafetos -ainda que- tortuosamente se faz. Desfazemos, então. Nem tudo é perfeito mas é necessário fazer a nossa parte. Nós, que somos inteiramente impregnados de sentimento e profundidade.
Meu amado relicário, sei que as coisas não são de fácil compreensão. A dor também soma e a alegria também subtrai, mas não vamos nos acomodar, tampouco nos incomodar com os aprendizados da vida. Deixe ser, então. Cada ganho vem a seu tempo, viver também é constante renovação.
Descobri há pouco tempo que podes se comunicar com outros corações. Sabes, muitos andam precisando de um empurrãozinho teu… Uma coisa bem leve, que mostre que não se deve temer o mundo, e que tudo vale à pena pela experiência e amadurecimento. Necessito que a confiança que temos um no outro se aplique também à situação, e que ele se permita ser pego pela mão e caminhe. Auxilia-me n’esta empreitada?
Grata pelas emoções que me trazes. Grata pelos afetos que me deste. Grata pelos sorrisos e também pelas lágrimas. Estou certa de tua ajuda.
Muito amor, sua
[alma em flor]
Lizzie.
“Com curiosidade meiga, envolvida pelo cheiro
de jasmim, atenta à fome de existir, e atenta
à própria atenção, parecia estar comendo
delicadamente viva o que era muito seu.
A fome de viver, meu Deus!”
[Clarice Lispector]
Postado por Lizzie Pohlmann | Em [Des]casos
sexta-feira jun 6, 2008
Meu grito é inaudível, por certo. Continuo a correr sôfrega, contra a maré imensa e alta dos desencantos. Vejo passar a fúria e o silêncio… Eu tenho a obrigação de ser colorida. A vida, cinza. É, eu sei, de quando em quando invertemos os papéis e a vida fica tão azul e aqui dentro tão amargo. Não me agrada este devezenquandário de acasos, me dóem as repetições mas eu sei - é, eu sei que lá no fundo os sentimentos não mudam, nós é que mudamos. Eu sou mulher, viva. E por dentro sou mais viva ainda, porque a vida pulsa desenfreadamente em mim. Quero, sim, tirar dela até a última gota mesmo desencantada. Eu esqueço o tic-tac dos relógios e das incansáveis brigas com o tempo. Disseram-me uma vez que o tempo é interno, mas o tempo aqui -dentro de mim- é tão vago que quase inexiste. Queria dizer p’ra mim mesma que tudo passa, tudo passa… Um mantra p’ra esquecer as angústias e dormir em paz. Em pensar que tudo tende a ser subtração…Que cada barulho do pêndulo do relógio é um instante a menos de vida irrecuperável. Viver é irreversível.
—————————————————–
-Sabe, menina… Na tua ausência eu sinto falta do teu riso aberto.
-Sente?
-Sinto.
-Claro, pessoas sentem - nós sentimos, é óbvio. Mas você me sente além do riso?
-Sentir, você?
-Você!
-Eu quase não rio…
-Não, a mim! Sentir a mim!
-Você se sente além do riso?
-Não, você!
-Ah, você me sente?
-Tá, eu sinto… Mas e você? Você me sente além do riso?
-Sinto…
[Silêncio]
-…
-Às vezes sinto falta de mim.
-Eu também, menina.
-Sente falta de si?
-Não, de você. E dói.
[Silêncio]
-Me abraça?
-Sempre.
E ela ri aberto. Não é de alegria, por certo. Mas ri.
“Em minhas andanças,
eu quase nunca soube se
estava fugindo de alguma coisa
ou caçando outra”.
[Rubem Braga]
Postado por Lizzie Pohlmann | Em [Des]casos
sexta-feira jun 6, 2008
Fitei teus olhos por alguns instantes, meu pensamento a mil enquanto tentava descobrir o que se passava por teu interior impenetrável. Eu olho as pessoas com certa ligeireza, é verdade. Mas o que fica em mim são sempre as expressões mais fortes. Baixo a cabeça e tento deduzir -por engano a mim mesma, talvez- que teus gestos rápidos e doloridos feito navalha eram a exteriorização d’aquilo que não se estava conseguindo dizer verbalizadamente. Tentava, é certo. Tentava me dizer por textos malversados algo que metaforicamente é incompreensível. E teus gestos cada vez mais rápidos, dolorosamente rápidos…
Voltei a fitar teus olhos e senti tua boca emudecer com máxima dificuldade. Eu já havia percebido teu imenso vazio de realidade. Então comecei a dizer, a soltar chispas de sentimentos incompreendidos - meio que por equívoco, como se eu fosse insociável. Não, não te quero nem santo, nem sátiro, não me agradariam extremos esparsos, eu quero o todo. Te quero em toda a tua fraqueza e mesmo que eu me fira, com todo o teu sentimento. Não vou afigurar uma ilusão malfazeja, nós somos da realidade. Sem ti eu me sinto um acaso.
Olha, eu te quero bem e me deixe falar por um instante mais. Pode ser difícil enfrentar o mundo agora, pois como disse Clarice [Lispector] “Um mundo todo vivo tem a força de um inferno” mas tu tens a mim e, afinal, nitimur in vetitum - nós buscamos o proibido. E olha, me incomoda a tua rustiquez dos gestos, essa sede insaciável que as possibilidades criam [em mim]. Não abre essa porta agora porque não quero te ver saindo da minha vida, não vai, fica. Não me deixe nessa miséria agonizante que é a dúvida, não me deixe, não deixe, não… Deixe.
”O seu tempo é o tempo que voa.
O meu tempo só vai onde eu vou.”
[Arnaldo Antunes]
Postado por Lizzie Pohlmann | Em Fe[lizzie]dade
sexta-feira jun 6, 2008
Todo mundo é síntese e tem correndo nas veias a herança genética. Síntese, comunhão de dois seres em si: os pais.
Do meu pai herdei os olhos atentos e observadores. Também a palidez da pele e das renúncias. Dele herdei o hábito do complemento, das reticências. As manias, os gestos tímidos e largos. Herdei a coragem, a ousadia e até o exílio voluntário… A intensidade afetiva e essa nítida sensação de liberdade. Dele o jeito de andar, os interesses e as ambições. Não bastasse, também tenho a fala convicta, o mesmo modo de deixar os óculos caindo, o jeito espaçoso, simples e tranqüilo. O bom humor ah, o bom humor!
Da minha mãe herdei essa tendência metafórica, a crítica e a distração; Dela, o pisar firme e a persistência. Herdei certa humildade e uma sentimentalidade sem tamanho. Também a segurança em recomeços, o viver sem medo dos erros. A gargalhada aberta, o choro fácil e certa inclinação para a tagarelice.
Dele a palavra verbalizada. Dela o instinto protetor. Dele a sinceridade. Dela o sorriso meigo. Dele a aventura. Dela a empatia. Dele o hábito do olho-no-olho. Dela a cautela. Dele o gosto pelo novo. Dela certo ar conservador. Dele a personalidade forte. Dela muita introspecção.
E dos dois juntos? Não sei… Talvez essa incrível tendência p’ra amores platônicos. E esse coração que ama a vida e sempre arde por algo ou por alguém…
Será?
“Amor não resiste a tudo, não.
Amor é jardim. Amor enche de erva daninha. “
[Caio Fernando Abreu]
Postado por Lizzie Pohlmann | Em [Des]casos
sexta-feira jun 6, 2008
É tarde da noite e eu posso ver claramente os pontos luminosos dos postes desenhando moedinhas encantadas na minha janela. Eu vou desnudando o pensamento, vendo por quantos fantasmas eu passei, em quantas ilusões eu cri, em quanto de mim coloquei ao alcance de nada. Não é isolamento não, cara! É auto-sabotagem. Eu andei me auto-sabotando todos esses anos. Criei uma idéia a que pudesse me apegar sem desesperar, mas o desespero é a própria fonte da vida.
Eu vou modificando-modificando-modificando; Vendo as ruas de Porto Alegre acesas e meus livros abertos sobre a cama… Duas buscas incessantes. E onde está - onde sempre esteve a esperança nessas horas hein? É, eu sei mas não precisa se desesperar não porque o caminho é cretino e mais ilusões virão, infelizes o suficiente para que tu tenhas esper[ânsia]. Espera em ti, cara! O outro nunca vai te apresentar nada de bom que não existe em ti mesmo, visse? E não adianta olhar pro céu e rezar, não! Toda prece deve ser ação, então age!
O caminho é solitário e medonho, eu sempre disse. De uma ironia terrível esse ato de “viver” assim no mais. Não, não estou dizendo ‘te-mata-vai-te-mata’, mas ‘ergue-teus-muros-e-te-protege-enquanto-é-tempo’.
Sentimentalidade é uma merda, sabes? Afundamo-nos a tal ponto que nem nós mesmos queremos sair dessa lama toda. E às vezes é bem simples, é simples sim.É preciso renovar os ânimos porque algo vez ou outra vai te empurrar pra frente, dá a mão e confia então! Se deixa levar um pouco mais além do que era esperado, te liga! Quantas vezes eu te disse que nosso estado natural é essa dorzinha-no-peito, hein? Isso quando não vira nó na garganta, que é semelhante ao nó que nós damos em nós mesmos, dia após dia…
Se fosse fácil eu não estava te falando isso tudo não! Se fosse fácil reagir eu mesmo já o teria feito. Sim, eu sei… Não precisa repetir mais uma vez que meu pensar é dolorido. Tu também te dói, só que eu exteriorizo. Eu também não vivo cheio de tesão pelo mundo, argh! Entenda que esse lance todo é quase um mantra mental, uma maneira de mandar o coração se aquietar antes que toda essa dor enlou-cresça e se torne insuportável pra nós dois.
Sentir é nada, nada, nada…
“Amanheci em cólera.
Não, não, o mundo não me agrada.
A maioria das pessoas estão mortas
e não sabem, ou estão vivas
com charlatanismo. E o amor,
em vez de dar, exige. E quem gosta
de nós quer que sejamos alguma coisa
de que eles precisam. Mentir dá remorso.
E não mentir é um dom que o mundo não merece…”
[Clarice Lispector]
Comentários